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domingo, 15 de maio de 2016

Parem de idealizar Dilma Rousseff

Eu nutro um profundo respeito pelos camaradas de esquerda, dos mais diferentes espectros e correntes. Sei que no fundo, nossas intenções de criar uma sociedade mais justa, igualitária, sem divisões de classes e opressões de qualquer tipo se convergem. No entanto, acho que precisamos pensar numas paradas, especialmente nesse circo dos horrores que estamos vivendo:

1) O governo Dilma era bom pra classe trabalhadora? Acredito que vcs dirão que não. Se acham que sim, paremos por aqui.

2) Se os próprios trabalhadores não são contemplados pelo governo do PT, como podemos travar o debate sobre esse governo ilegítimo do Michel Temer?

3) Será que idealizar uma Dilma Rousseff de luta, aguerrida, a famosa ~~coração valente~~ que lutou contra a ditadura adianta?

4) Será que não está claro pra todo mundo que esta Dilma idealizada não passa de uma caricatura, já que existe uma diferença abissal entre a Dilma presidenta e a Dilma guerrilheira?

5) Se a reposta à pergunta anterior for positiva, será que é criada uma caricatura da Dilma apenas, ou também uma caricatura de uma militância de esquerda que fecha os olhos para a realidade?

6) Será que vale tanto apena travar um embate em torno da categoria de golpe?

7) Independentemente da resposta anterior, será que não vale mais a pena nós nos concentrarmos em discutir os terríveis retrocessos que o PMDB planeja para o Brasil, independentemente de (i)legalidade do processo?

8) Por último, será que nós não estamos, nesse debate todo, adotando uma postura arrogante que dificulta o diálogo com a grande maioria da classe trabalhadora?

Não são perguntas retóricas. Gostaria de saber o que vocês tem a dizer. Um beijo no pulmão da galera.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre preconceito de raça, de idade e de roupa.

Ontem conversei com um rapaz do curso onde trabalho. Ele devia ter uns 17, 18 anos, estudante do colégio militar. Ah, ele é negro também.
Ele me falava da sua dúvida entre cursar direito (porque queria ser defensor público) ou História (porque achava muito maneiro). Ele não entendia como havia estudantes de direito, ou pessoas que pretendiam fazer o curso que achavam maneiro a violação de direitos da população mais pobre por parte do Estado. Conversa vai, conversa vem, caímos na discussão sobre o racismo e as cotas raciais. Falei um pouco da minha pesquisa de mestrado, que tem a ver com o tema, e ele contou que tinha lido algumas partes de "Casa grande e Senzala", do Gilberto Freire. Disse que não concordava muito com o que o autor dizia, mas achava importante ler porque foi uma das primeiras abordagens sobre as relações étnicas no Brasil. Ele falou também sobre algumas experiências que já passou. Uma, de quando ficou feliz quando percebeu que, ao andar na rua, a pessoa que vinha em sua direção não a atravessou (coisa que, segundo ele, sempre aconteceu), e outra das 9 abordagens policiais pelas quais já passou. Segundo ele, apensar uma dessas vezes, a abordagem foi minimamente educada. Uma parada que esse rapaz me disse e que tá na minha cabeça agora foi o seguinte: "Dói muito quando alguém diz que esse tipo de coisa (racismo) não existe. Porque a gente sabe que existe"
Fiquei de 20 a 30 minutos conversando com ele. Ele mostrou uma serenidade e um espírito crítico pra tratar de temas tão delicados como racismo, ações afirmativas e luta de classes que eu não esperava de uma pessoa da idade dele. Ainda mais com a roupa que ele estava usando (aquele uniforme pééééssimo do colégio militar).
Fiquei pensando sobre isso, e tenho a mais absoluta certeza de que ontem eu aprendi com ele mais do que ele aprendeu comigo. E quantas vezes nós deixamos de aprender alguma coisa por diminuirmos as pessoas por conta da idade que elas tem, dos lugares que elas frequentam, ou por conta da cor da pele delas? É para se pensar.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Todo professor é um doutrinador

Olá, queridos (e poucos) leitores. Resolvi finalmente fazer uma nova postagem nesse moribundo blog. Peço desculpas àqueles que sentiram falta das postagens que fiz nos últimos 5 anos. Eu estava terminando minha monografia e, além disso, tinha coisas mais importantes para fazer. Bem, mas como ninguém tem porra nenhuma a ver com a minha vida, vamos ao que interessa.

Muito se discutiu nos últimos meses (ou anos) o que foi chamado de "Doutrinação Ideológica nas escolas brasileiras". De fato o tema não é novo, e tendeu a gerar discussões desde que a revista Veja publicou, em 2009, uma reportagem intitulada "prontos para o século XIX", que anunciava o fato de que alguns professores de orientação marxista expunham a ideologia deles em suas aulas. Em 2015, o tema ganhou mais notoriedade a partir da apresentação do projeto de lei 867/2015, que institui o programa "Escola sem partido". Dentre vários pontos do projeto que podem ser destacados e debatidos, amplamente, eu resolvi falar de um especificamente. Diz o seguinte: 

Art. 4º. No exercício de suas funções, o professor: 
I - não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária

Pois bem, eu fico me perguntando como isso pode acontecer. Primeiramente, se o professor não pode "cooptar os alunos" em direção a um determinado tipo de formulação ideológica, como se daria a relação de ensino-aprendizagem? Talvez você que está lendo não tenha entendido a minha indagação. Mas vamos lá.

Primeiramente, todas, eu digo T-O-D-A-S as aulas que você puder ter na sua vida estarão carregadas até o último fio de cabelo de ideologia. Desde a delimitação curricular, passando pelo tempo de aula, chegando até a forma de exposição docente, vai ter ideologia. Seja ela qual for. Marxista, liberal, keynesiana, fascista, pós-moderna, o caralho a 4. Por exemplo: quando um professor fala para o estudante "Estude para passar na prova", ele está dizendo que o objetivo pedagógico daquela relação de ensino-aprendizagem é fazer com que o aluno fique acima da média em um exame. Isso revela uma concepção de educação que não está nem um pouco preocupada em saber se os estudantes adquiriram qualquer nova competência, mas que está sim preocupada com números, metas, médias, rankings, etc. É o que Paulo Freire chamou de "educação bancária". O mesmo vale para o famoso "estude para ser alguém na vida", ou "estude para passar no vestibular". Todas essas frases estão carregadas de sentido ideológico, que reforçam um ideal meritocrático de sociedade.

Quando eu era estudante de ensino médio e fundamental, por mais que sempre tivesse estudado em escolas podres (que continham alguns bons profissionais), as aulas não se restringiam apenas ao conteúdo do livro didático (ainda bem). Alguns professores promoviam debates (na verdade só a Nívea Andrade fazia isso, um beijo fessora), outros davam dicas para a vida, outros aconselharam quais carreiras seguir e quase todos proferiam esporros homéricos. E não sei se pra vocês é assim também, mas as broncas eram muito mais fáceis de se lembrar do que a matéria ensinada. Por exemplo, eu tive um professor de matemática no 3° ano do E.M. que toda sexta feira se desentendia com alguns alunos da turma. As únicas lembranças que tenho de suas aulas são duas coisas. Primeiro, ele sempre proferia a frase "Deixa eu vender meu peixe" quando os estudantes falavam demais em sua aula. Segundo, houve uma ocasião na qual, ao se desentender com uma aluna, ele a mandou pilotar um fogão. Pois bem, na concepção de educação desse educador (fosse essa concepção consciente ou não), a educação poderia ser associada sem problema algum a uma mercadoria qualquer, como o peixe que a gente compra na feira, e, além disso, lugar de mulher é na cozinha. O que eu "aprendi" com esse cara? Isso. Pergunte-me qualquer coisa sobre trigonometria. Não sei nem o que é isso. Mas por que, então, eu não aprendi matemática com esse cara? Por que eu sou merda? Sim, também. Mas a concepção de educação que ele tinha me afastava de suas aulas (por mais que eu não tivesse consciência disso na época). A única coisa que esse cara me passou foram ideais mercadológicos e machistas (não somente ele, é importante dizer). Ou seja, de certa forma ele também é um doutrinador, por mais que ele sequer se dê conta disso. 

Outro exemplo: quando estava na 8° série, atual 9° ano do ensino fundamental, um belo dia um professor de biologia entrou na sala e a turma estava fazendo bagunça. Revoltado, o professor disse que nós éramos animais, que deveríamos viver enjaulados, "naquelas jaulas que você encosta e dá choque", e que se continuássemos daquele jeito nos transformaríamos num tipo de gente que picha muros e depreda monumentos.  Vejam bem, isso aconteceu há quase 10 anos e eu lembro desse dia como se fosse hoje (graças ao Rodrigo Cravo, que sempre me faz lembrar dessa merda e rir pra cacete). Agora, perguntem pra mim que caralho é um leucócito, ou qual é a função do complexo de golgi. Não sei merda nenhuma.

O que eu quero dizer com esses dois exemplos? Tem coisas que os professores (todos eles) nos dizem que nos marcam, mas que não possuem nada a ver com a disciplina que eles ministram. E essas coisas nos passam valores. E esse valores são interligados com o que? Com a caralha da ideologia. Quando um professor manda uma aluna ir pilotar um fogão, ele está difundindo um tipo de ideologia, se valendo da ~~audiência cativa~~ dos demais para difundir machismo. Quando um professor se depara com uma turma bagunceira e diz que todo mundo deveria ficar enjaulado, ele está se valendo da audiência cativa dos alunos para difundir ideias punitivas de animalização do homem. Esses foram só dois exemplos.

Agora, por que será que quando esse tema surge em um debate público, sempre há uma menção aos marxistas? Será que eles são os únicos que fazem doutrinação? Ou será que esse é o único tipo de doutrina que incomoda? Qual a diferença entre um "estude para fazer a revolução social" e um "estude para ficar rico"? Ambos tem objetivos diferentes. Qual a semelhança? Ambos são essencialmente ideológicos. Daí eu te pergunto: qual deles tem maior probabilidade de ser acusado por assédio ideológico?

Bem, posso estar equivocado. Mas gostaria que vocês me falassem de qualquer professor que vocês tiveram que estava alheio às ideologias. Se encontrarem, me mandem em uma nave para o planeta dele que eu quero conhecê-lo.

De qualquer forma, temo pelo futuro da educação, uma vez que, se essa lei passar, creio que nenhum professor vai passar ileso, haja vista que todo educador tem sua ideologia (ainda que algumas delas não tenham um nome ou conceito), e é impossível não levar seus valores para as relações de ensino-aprendizagem. Nos vemos na cadeia, amigues.

domingo, 30 de novembro de 2014

O que toda escola pública deveria ter?

Toda escola pública deveria ter:
1 - Assistentes sociais
2 - Psicólogos
3 - Professores bem remunerados
4 - Diálogo com a comunidade para definir seus paradigmas pedagógicos
5 - Eleições diretas para a direção
6 - Enfermeiros
7 - Diálogo com o conhecimento dos estudantes
8 - Salas de aula minimamente estruturadas.
9 - Bibliotecas minimamente equipadas
10 - Salas de informática.
11 - Laboratórios experimentais
12 - Quadras poliesportivas para a prática de Educação Física
13 - Grêmios estudantis.
14 - Políticas dialogadas de combate a todas as formas de discriminação.
15 - Autonomia pedagógica para os docentes, sem intervenção de avaliações externas padronizadas.
16 - Turmas com um número máximo de estudantes.

Se vocês, caros(as) amigos(as), resolverem visitar alguma escola estadual daqui do Rio de Janeiro, faço o seguinte desafio a vocês: Encontrem quatro desses itens. Apenas quatro, para ser modesto.
Talvez vocês não encontrem nenhum, inclusive.

Mas tenho certeza que um ítem (que não consta na lista) terá muito mais chances de ser encontrado: a Polícia Militar fazendo a "segurança" da escola. Gostaria de ouvir/ler vocês em relação a isso. É inacreditável (na verdade é bem crível) que esta seja a forma com a qual o Governo do Estado lide com as escolas públicas.

Escrevo isso para que a violência promovida via Estado para com os professores grevistas do ano passado não seja esquecida. Escrevo isso para que a violência simbólica exercida diariamente contra os estudantes e profissionais das escolas públicas não sejam naturalizadas. Nada deve parecer impossível de mudar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Os vagabundos sustentados. Por quem?

Como todo mundo já sabe, Dilma Rousseff foi reeleita presidente do Brasil, na eleição mais acirrada da história do nosso país. Isso, para mim, não é motivo de felicidade alguma. Pelo contrário. Não me entusiasmei nem um pouco com a campanha petista (diferentemente de parte da esquerda), financiada por grandes empresas e apoiada por oligarcas tradicionais. A única coisa que me alivia neste momento é saber que o candidato derrotado era membro de um partido mais elitista que o próprio PT, que o máximo que conseguiu fazer até hoje foi uma leve redistribuição de renda e um aumento no poder de consumo da população de maneira geral. No demais, as históricas estruturas sociais brasileiras permanecem. No entanto, mesmo com o pouquíssimo feito até agora, uma parcela da população brasileira se vê indignada com os benefícios recebidos por muitas pessoas via programas sociais. Em uma das centenas de discussão pós eleição que pude ler no Facebook, um rapaz dizia o seguinte:

"Aproveitem os 4 ultimos anos de mamata social. O ciclo petista vai acabar, enquanto isso, continuo trabalhando para sustentar uma parcela da população extremamente acomodada. Burros não! Burros seriam se votassem no Aecio e perdessem toda essa moleza."

Quando o rapaz se posicionou em relação às pessoas que ele sustenta e são extremamente acomodadas, eu me fiz (e continuo me fazendo) a seguinte pergunta: de quem será que esse cara tá falando? Será que ele se refere aos filhos de seus patrões, que graças à exploração do trabalho dele e da apropriação de grande parte da riqueza que ele produz, conseguem pagar festas luxuosas de aniversário, dar presentes caros no aniversário, carrinho zero quando o pleiba passa na faculdade, 2 cursos diferente de idiomas, o paga o melhor curso pré-vestibular da cidade pro jovem estudar na melhor universidade (sem trabalhar, enquanto isso)? Se formos levar em conta o número de falências declaradas no período FHC, até que faz algum sentido né? Se pensarmos em como o PT foi, é e continuará sendo bonzinho com a classe empresarial, dá pra dizer que seus filhos são vagabundos sustentados pelo governo, ou não?

domingo, 14 de setembro de 2014

Esse texto é só a minha opinião.

Uma tendência muito comum que muitas pessoas encontram para se esquivar de posicionamentos contrários aos seus é utilizar o seguinte argumento: "É só a minha opinião, cada um tem a sua".
Sim, amigo(a), cada um tem a sua opinião. No entanto, por serem "apenas" opiniões, cada tipo de posicionamento tem as suas falhas e os seus acertos. Sendo assim, quando expomos nossos pensamentos, ainda mais em público, estamos sujeitos a recebermos críticas a eles. Coisa mais normal do mundo.

No entanto, percebo que entre muitas pessoas, inclusive pessoas próximas a mim, o uso de tal argumento, que nada mais diz do que o óbvio, tem servido como base para que essas pessoas evitem o debate, numa "lógica" que funciona da seguinte maneira: "Nós pensamos de maneiras diferentes, não podemos debater". Eu gostaria de entender que sentido isso faz. Por isso, faço os seguintes questionamentos:

1) Gente, eu já sou bem crescidinho, já tenho 22 aninhos, e gostaria que vocês me dissessem o seguinte: pessoas com o mínimo de maturidade (e olha que eu me considero imaturo pra caralho) não conseguem debater através de pontos de vista diferentes sem que isso incorra em ofensas ou qualquer coisa do tipo?

2) Para que serve o debate? É para que as pessoas mudem de ideia? Ou para que nós aprendamos no diálogo com o outro? Ou as duas coisas?

Quando eu vejo alguém encaminhando a discussão para o ponto do "é só a minha opinião", eu penso o seguinte:

1° - É óbvio que o que você diz é somente a sua opinião, isso é a coisa mais banal que pode ser dita em uma discussão, uma vez que ninguém é detentor de uma verdade absoluta e objetiva.
2° - Quando alguém recorre a esse discurso, vejo uma tentativa de blindar sua argumentação, como se pelo fato de ser "só a a opinião dele(a)", ele(a) esteja isento de qualquer tipo crítica. ~~Na minha opinião~~ isso mostra nada mais do que uma fraqueza argumentativa, ou seja, falta de sustentação teórica ou empírica no que está sendo dito.

Ou seja, queridos e queridas, quando tivermos as nossas divergências, que geralmente são muitas, por favor não usem mais a retórica do "é só minha opinião". Por quê? Porque eu já sei, todo mundo já sabe, você não precisa dizer. Assuma seu lugar de falar, seu lugar de crítica, ainda que esta seja a mais tacanha possível, e dê a cara a tapa. Assim eu vou aprender contigo e tu vais aprender comigo. Ainda que nós mantenhamos todas as diferenças possíveis. Quando você se torna recluso a isso, não terei outra opção a não ser achar que você:

1) É burro.
2) É preconceituoso
3) É mal intencionado
4 ) Se encontra numa suposta zona de conforto da qual não quer sair (digo suposta porque a maioria dos meus amigos são estudantes e/ou trabalhadores, moradores da periferia de uma cidade localizada na periferia do capitalismo, o que não configura nenhum tipo de privilégio - a não ser que você considere ter uma casa e ter o que comer como privilégio)
5) Todas as opções acima.

Então, por favor, não faça eu ter uma ideia errada sobre você, exponha-se, por favor. Isso é digno de respeito. Quer dizer, pelo menos na minha opinião é, né?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O racista e o manipulado pela mídia

Há alguns anos atrás, tive a oportunidade de fazer uma disciplina com a professora Martha Abreu na qual os estudantes foram incentivados e a desenvolver aulas e projetos pedagógicos de caráter antirracista. Até hoje, nesses meus 4 anos e meio de UFF, foi uma das melhores disciplinas que já cursei e uma das que mais contribuíram para a minha formação enquanto historiador e cidadão, por vários motivos que não cabem aqui explicar. Mas enfim, em umas das intensas e interessantes discussões realizadas durante o curso, muito se leu e se falou que o racismo brasileiro é como se fosse um assassinato sem corpo, ou seja, de difícil identificação. Por quê? Porque o racismo sempre está no outro, nunca em nós. Se eu perguntar para você que está lendo este texto a seguinte pergunta: "você é racista ou já cometeu atos racistas?", a sua resposta provavelmente será "não". No entanto, se a pergunta for "Você conhece alguém que seja racista ou que tenha cometido um ato racista?", as chances da sua resposta ser positiva aumentam razoavelmente. Isso porque nós sabemos que o racismo é crime e algo totalmente repulsivo. Então, não queremos ser associados a quaisquer tipos de práticas racistas porque certamente seremos repreendidos e reprovados. Também aprendemos na escola que a "Raça", em termos biológicos não existe, e tendemos a acreditar que o simples fato de termos isso em mente é suficiente para termos superado a nossa herança maldita da escravidão. Falando em escravidão, também tendemos a acreditar que com o fim dela, quaisquer tipos de tensões raciais deixaram de existir em 1888, ou então que quaisquer atos racistas estejam somente ligados a ela. Infelizmente não é bem assim. Inúmeros estudos sobre o negro no pós-abolição no Brasil mostram que a condição de vida da população negra não melhorou significativamente em termos econômicos e sociais (apesar de não negar o grande avanço que foi o fim da escravidão, obviamente), muito por conta da vinda de imigrantes europeus (num projeto de embranquecimento da população, baseada nas teorias da ciência racialista da segunda metade do século XIX) que passaram a ocupar os melhores postos de trabalho. Enfim, tem muito mais do que isso que eu to falando bem resumidamente. O ponto é: por mais que saibamos que Raças, no sentido biológico da coisa, não existam, a composição da nossa sociedade ainda leva consigo muitas características de uma época em que se acreditava na existência delas. Em outras palavras, o conceito de Raça foi superado, mas o racismo (cultural e estrutural) não.

Mas ai você se pergunta: o que racismo brasileiro e manipulação da mídia tem em comum?
Eu respondo: Tudo.
Por quê? Vamos lá:

Da mesma forma que o racismo no Brasil se dá de maneira velada, onde ninguém admite a sua parcela de culpa, uma forma comum de desqualificar o posicionamento alheio é dizer: "Fulano/a é manipulado/a pela mídia/Globo/Globosta/etc.". E aí eu faço uma pergunta parecida com a que eu fiz acima: "Você, caro/a leitor/a, é manipulado/a pela mídia?". Eu tenho certeza absoluta que você vai dizer que não. E faço mais uma pergunta parecida com a outra lá de cima: "Você conhece alguém que seja manipulado/a pela mídia?". Provavelmente, a sua resposta será positiva. Qual o grande problema disso? Muitas vezes não nos damos conta do grande império de comunicação que existe nesse país, chefiado pela família Marinho, mas que conta também com os Civita, Abravanel, Igreja Universal, e talz. E caímos mesmo na tolice de acreditar que, por termos estudado um pouquinho e por termos acesso a internet, estamos totalmente livres do domínio midiático, sem muitas vezes sequer levarmos em conta que as grandes empresas de comunicação tem um traço classista lógico em sua produção majoritária. Acreditamos mesmo que estamos livres de toda a enxurrada cultural da Globo e suas parceiras. Essa estrutura tem suas consequências totalmente danosas para a nossa democracia (se é que dá pra chamar isso aqui de democracia). E tendemos a colocar a culpa no outro sobre estas consequências. O problema sempre está no outro. Que vota mal, que não tem opinião própria, que "só vê novela e futebol" etc. E aí passamos a rejeitar qualquer coisa que venha da tal mídia demoníaca por causa das consequências que ela gera no outro, mas em nós, seres iluminados e perfeitamente pensantes, jamais. Exemplo: no final da novela do Félix (esqueci o nome e fiquei com preguiça de procurar, foi mal), houve um beijo entre dois caras. Parte das pessoas comemorou o que aconteceu, por acreditar que a visibilidade maior dada aos homossexuais é uma ferramenta importante para o combate à homofobia. Outras pessoas caíram na sandice de sair falando mal da emissora por estarem passando "sem vergonhices" em horário nobre que só alienariam muito mais nossa população. Ou seja, combatemos a ~~alienação midiática~~ com homofobia? Quem achou o beijo gay um avanço na visibilidade homo afetiva é necessariamente alienado/a pela mídia? E quem falou mal da Globo por conta do episódio é uma pessoa intelectualmente independente e super instruída, diferentemente dos outros que comemoraram?

O que eu quero dizer é o seguinte: muitas vezes acreditamos que estamos combatendo o racismo sem necessariamente contribuir para uma real igualdade entre pessoas de diferentes cores porque acreditamos que tal igualdade já existe ou está muito próxima, daí pensamos que precisamos fazer pouco para alcançá-la, ou então, deixar o assunto pra lá, porque se não falarmos mais nisso, uma hora vamos esquecer e vai ficar tudo certo. Da mesma forma, tendemos a rechaçar qualquer coisa que venha da grande mídia sem qualquer reflexão crítica porque achamos que estamos livres dela, e/ou que tudo que venha dela é ruim. Pior ainda, não levamos em consideração as disputas que ocorrem dentro dela, que são disputas (ainda que tenha muitas limitações)que se dão em outros espaços da sociedade. Qual é a consequência disso? Acabamos por ser contra o racismo sem discutirmos a estrutura da sociedade com traços raciais bem definidos, e combatemos o que é veiculado pela mídia utilizando as mesmas ideologias dessa mídia que tanto criticamos. Basta ver quantas pessoas detestam a Globo e são a favor de pena de morte, da redução da maioridade penal, contrárias às cotas raciais (propostas que estão de total acordo com o pensamento da classe dominante, da qual os grandes impérios de comunicação fazem parte), etc. Estou querendo dizer que todo mundo que é a favor da pena de morte e das outras propostas seja ~~manipulado pela mídia~~? Não necessariamente. Creio que muitas pessoas sofram influência da mesma em diversos aspectos de suas vidas (desde o tipo de música que ouve, passando pela roupa que veste, até a sua cultura política) mesmo que não queiram, da mesma forma que acredito que muitas pessoas, mesmo não se identificando como racistas, praticam o racismo direta ou indiretamente no cotidiano. O primeiro passo para nos livrarmos disso tudo é termos plena consciência de que somos seres influenciados e influentes, e numa sociedade desigual como a nossa, é muito difícil se ver livre dos padrões e da noção de cultura dominantes.

Não é feio, admitir que já praticou racismo alguma vez na sua vida, feio é querer esconder isso, fechar os olhos para ele e dizer que tá tudo bem, porque temos as mesmas capacidades e potencialidades (isso todos já sabemos, precisamos ir além disso). Também não é feio admitir que sofre influência da Globo e emissoras afins. Feio é achar que você é uma ilha. Ainda mais quando tá escrito na tua cara que não é. Beijos no cérebro e vamos à luta. Até a próxima.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Shopping e a minha casa.

O grande tema dos últimos dias nas redes sociais foi o tal do "Rolézinho". Tais eventos ocorreram nas últimas semanas em São Paulo, e neste final de semana, ocorrerá um no Shopping Leblon, bairro chique da Zona Sul do Rio de Janeiro. Neles jovens das favelas e periferias, assim como alguns militantes de movimentos sociais se reúnem pra passear, tirar uma onda, dar uma paquerada e tudo mais.

Tais atos geraram um grande temor por parte dos donos de Shopping Centers e lojistas alocados neles, que mandaram seus funcionários fecharem as portas, temendo possíveis arrastões. Todo esse ocorrido fez com que se revelasse bastante sobre as formas de discriminação veladas que existem na sociedade brasileira. Para muitos membros das elites e de camadas médias da sociedade, um monte de gente pobre, andando junta e fazendo algazarra, é certeza de crimes à vista.

Como era de se esperar, houve uma polarização de opiniões nas redes sociais, onde uma parcela defendia os argumentos de lojistas e donos de shoppings e, por outro lado, outra parte defendia o direito da molecada de realizar o "Rolézinho" numa boa. Ainda houve quem tentasse achar um "meio termo" para essa discussão, coisa que, no meu ponto de vista, é totalmente inadequada para este tipo de discussão.

O que vou falar no meu texto é algo bem sucinto, mas acredito que seja fundamental pra realização desse debate. Quem me conhece sabe bem de que lado eu me posiciono, portanto, não vou bancar ~~o imparcial~~, até porque acredito que a parcialidade não desqualifique a opinião de ninguém. Muito pelo contrário.

Um dos argumentos utilizados pelos defensores dos lojistas e donos de shopping foi o de que, por se tratar de um ambiente de natureza privada, os proprietários teriam o direito de impedir a entrada desses "Rolezeiros" nos Shopping Centers. A parte defensora dos jovens do "Rolézinho" contra-argumentou dizendo que tal proibição se trataria de uma discriminação tanto de cor, quanto de classe, uma vez que a entrada nos Shoppings é gratuita e aberta ao público em geral.

Mas ai alguns gênios da internet utilizaram o argumento que está brilhantemente exposto nesse link:

Segundo o vídeo, que eu espero que vocês tenham visto até o final sem ter um ataque epilético, os defensores do "Rolé" nos shoppings, deveriam fazer um evento parecido com este em suas respectivas residências. Diante de tanta boçalidade intelectual, me vi obrigado a dizer o óbvio.

Queridos amigos, é possível defender um argumento e um posicionamento sem ser burro. Diante disso, eu venho a público dizer para vocês que um Shopping não é uma residência. Me sinto muito idiota em dizer isso como se fosse uma novidade, mas tudo bem. Não há interesse público em visitar a minha casa, nem a de ninguém, a minha casa não é um centro comercial aberto ao público, nem um museu, nem uma praça onde velhinhos se reúnem para jogar baralho, ou qualquer coisa do tipo. O shopping, apesar de ser privado, sempre teve acesso aberto a qualquer pessoa. Sendo assim, o único motivo plausível pelo qual a entrada de alguém poderia ser vetada seria a superlotação. Os tais "Rolézinhos" não superlotaram os shoppings, principalmente se a gente comparar com a realidade de algumas semanas atrás, quando as compras de natal levaram milhares às lojas, nas quais houve um baita lucro das lojas às custas de degradantes condições de trabalho para a maioria dos funcionários. Sendo assim, defender que o dono do shopping pode escolher entre receber esses jovens negros e favelados no seu estabelecimento comercial (que repito, sempre foi aberto ao público) ou não, é, na melhor das hipóteses, fechar os olhos pra segregação social e racial que existe na sociedade brasileira e ajudar na manutenção do status quo.

Tal "argumento" não merece sequer esse denominação. Isso nada mais é do que desonestidade intelectual. Ou, quem sabe, burrice mesmo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Porta dos Fundos e a revolta dos cristãos.

Acho engraçado que uma galera defensora da liberdade de expressão, que diz que o humor não pode ser censurado e que existe uma ~~patrulha do politicamente correto~~ que não deixa ninguém fazer mais piada nenhuma com ninguém, agora anda toda revoltada com os vídeos da galera do Porta dos Fundos. Segundo esses, tais vídeos são uma afronta ao cristianismo e aos valores cristãos. Alguns chegaram ao ponto de dizer que os vídeos deveriam ser retirados do ar e tudo mais.

Eu entendo que muitos de vocês, amigos cristãos, não gostem de tais vídeos. Tais histórias, e valores contidos nelas são sagrados pra vocês. Mas eu gostaria que vocês entendessem também, que por mais que vocês não gostem e discordem, a história de Cristo e do Cristianismo NÃO É MONOPÓLIO de vocês. Ela pertence ao público. E este público inclui também os não-cristãos, que diferentemente de vocês, não consideram tais histórias sagradas. Vocês podem não gostar da interpretação que o grupo fez e satirizou. Sendo assim, sintam-se livres para não verem mais nenhum vídeo deles. De qualquer forma, em nenhum momento dos vídeos em que vocês afirmam que há um ~~ataque ao cristianismo~~ há incitação ao ódio ou reforço de esteriótipos, ou qualquer tipo de violência simbólica, e sim uma subversão de uma história contada por vocês que cada ser humano tem direito de interpretar e reproduzir da maneira que melhor entender. Queria muito que vocês entendessem que criticar e satirizar não é a mesma coisa que ofender.

Outro bagulho que vocês estão fazendo e está me dando vergonha alheia é usar o seguinte argumento: "Quero ver fazer isso com Maomé". Se vocês acreditam que o que vocês sofreram foi incitação ao ódio, por quê vocês provocam o Porta dos Fundos a fazer o mesmo com os símbolos de outra religião? Confesso que não entendi. Além do mais, isso não é contra o princípio da própria religião de vocês?

Outra coisa, e é o que talvez mais me incomode no momento: quando os "humoristas" Danilo Gentili e Rafinha Bastos soltaram um monte de piadas preconceituosas contra negros, judeus e mulheres, muitos de vocês se calaram e uma parte ainda veio dizer: "É só uma piada, tem uma galera muito chata que fica patrulhando os outros". Como diria a Tia Vera, minha ex catequista, vocês estão precisando fazer um exame de consciência. Só a fé de vocês merece respeito? A dignidade de seres humanos estigmatizados e violentados pode ser tratada como piada numa boa, mas uma sátira com a história da qual a religião de vocês se apropria (mas que, repito, em nenhum momento é posse absoluta de vocês) é uma afronta a princípios morais? Vocês tem certeza disso?

Há quem diga que há uma perseguição aos valores do cristianismo no Brasil. Eu sugiro que vocês façam a seguinte reflexão: Quantas vezes você, cristão, foi alvo de preconceito por ser cristão? Se já foi, tente se comparar aos adeptos de religiões de matriz africana. Quantas vezes seu templo ou igreja foi destruído por fanáticos? Quantas vezes você propôs que uma oração fosse feita e isto foi negado(incluindo lugares onde manifestações religiosas não deveriam acontecer, fossem elas cristãs ou não)?

Eu espero que muitos de vocês não confundam a luta pela laicização do Estado (ou seja, a separação entre religião e Estado) com uma luta pelo fim de qualquer crença. Caso contrário, vocês estarão sendo nada mais do que massa de manobra de políticos e empresários travestidos de líderes religiosos que querem transformar a sua fé em projeto de poder (que não necessariamente vos inclui). Sendo assim, sugiro que vocês façam uma reflexão mais profunda antes de assinar qualquer baixo assinado ou fazer qualquer denúncia. Obrigado e beijos no cérebro.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Eu sou chato, mas não sou maluco. (ou vice-versa)

Primeiramente, meus amigos, é com prazer que retorno a escrever neste tumultuado e polêmico wannabe blog. A vida esteve muito corrida nos últimos meses e a preguiça andou batendo forte nos tempos livres. Mas aqui estou, de volta para falar um pouco sobre as coisas caóticas da vida.

Nos últimos meses, o estado do Rio de Janeiro, em especial a sua capital se viu sacudido por uma série de manifestações que levaram milhares e até milhões de pessoas às ruas. Tal processo tem levado a um enfraquecimento do governo do Estado, liderado pelo excelentíssimo senhor Sérgio Cabral Filho. O caso do complexo do Maracanã é emblemático. Há meses atrás, a posição de derrubar o Museu do Índio (e retirar os indígenas da aldeia Maracanã), o parque aquático Júlio Delamare, o centro de atletismo Célio de Barros e a escola municipal Friedenreich era firme. Toda a mobilização popular fez a posição autoritária e antidemocrática do governador voador se desmontar como um castelinho de areia.

A verdade é que Cabral não tem mais moral nenhuma com a população do estado que ele (des)governa. Assim, ficará muito difícil que ele reeleja o seu candidato para o próximo mandato, o atual vice-governador Luiz Fernando Pezão. O que de fato seria uma grande tragédia.

Mas como não há nada tão ruim que não possa piorar, temos visto que nas pesquisas mais recentes de opinião para as próximas eleições tem aparecido nomes nada alentadores. César Maia, Lindberg Farias, Anthony Garotinho (além de Pezão) são os nomes mais cotados. Boa parte de vocês quase infartou ao saber disso. Ao lermos esses nomes, podemos ver que caso as pesquisas se confirmem, não haverá nenhuma mudança significativa nas políticas públicas do nosso estado, e a relação deste com a sociedade não será modificada. Sem valorização do serviço e de servidores públicos, elefantes brancos, gastos inúteis, desvios, privatizações, etc. Nada de novo, nem os nomes.

No entanto, estamos em agosto de 2013. As eleições serão em Outubro de 2014. Há tempo para que essa situação se reverta. No entanto, não é querendo ser chato nem nada (afinal, eu canso de falar isso), mas se vocês de fato estão ansiosos para uma mudança no nosso estado, como melhora no transporte público (em preço e qualidade), hospitais com médicos bem remunerados e com equipamentos suficientes para bom funcionamento, escolas com infraestrutura e com valorização de seus profissionais, o fim da violência e arbitrariedade da PM, entre outras coisas, a saída não se encontra por outro lado que não seja a esquerda.

As vezes é chato pros amiguinhos ouvirem isso, afinal, muitos de vocês não querem ir pra esquerda nem pra direita, querem ir pra frente. Mas esse papinho ~~neutro~~ é exatamente o mesmo que aqueles que te enganam praticam. Vocês querem ser que nem eles? Talvez seja essa a hora de vocês saírem de cima desse muro e pararem de achar que pode haver conciliação numa sociedade tão desigual e conflituosa como a nossa.

Um abraço a todos!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Vou contar uns segredinhos pra vocês

1 - O Marcelo Freixo está correto quando se pronuncia em relação a operação que resultou na morte do traficante Matemático.
2 - Direitos Humanos não foram feitos para defender bandidos. Procure no google "Declaração universal dos direitos do homem e do cidadão" e parem de falar besteira.
3 - Bandido bom não é bandido morto, é bandido recuperado.
4 - Nem você, nem eu, nem ninguém temos o direito de afirmar quem tem chances de se recuperar ou não.
5 - O seu desejo de morte e vingança de criminosos dá sinais de psicopatia claros. Procure tratamento.
6 - "Se isso acontecesse com a minha família" eu ficaria puto também. Mas por favor, deixa de ser imbecil e achar que as leis tem que se adequar ao desejo de vingança dos seres humanos.
7 - Se nos EUA existe a pena de morte, azar o deles. São uma sociedade autoritária que tenta se colocar acima do bem e do mal sem sequer dar um jeito nos problemas reais daquele país (pois é, existem problemas sociais nos Estados Unidos da América)
8 - Você é extremamente burro se acha que nos EUA tudo é melhor que no seu país.
9 - A punição de crimes por si só não resolve nada.
10 - Se você acha que ao completar 18 anos, o criminoso de 17 vai parar de cometer crimes, você é retardado.
11 - A redução da maioridade penal não serve para nada, nem como medida paliativa.
12 - Mentira, serve sim. Vai piorar as condições nas prisões brasileiras. Ai você pode pensar: "Ah, foda-se, desde que não estejam na rua, tá bom". Ai o maluco se torna um animal na cadeia, sai de lá com 21 ou 22 anos pior do que quando entrou. Ai vai e rouba o seu celular que você lutou tanto pra comprar. Mas que chato né?
13 - Assistir os programas do Wagner Montes e do Datena faz um certo mal à saúde.
14 - Um rapaz de 16 é grande o suficiente para responder por seus próprios crimes. Mas não pode ganhar direitos com isso?
15 - O Dudu Paes é um bandido mais perigoso do que os do morro (não que esses não sejam)
16 - O Sérgio Cabral também.
17 - O Eike Batista também.
18 - Não, eu não gosto, nem tenho peninha de bandido. Mas também não gosto da burrice de vocês.
19 - É muito engraçado ver pessoas que se dizem "de Deus" reproduzindo todos esses discursos de ódio. Tomem cuidado se não vocês vão pro inferno, hein.
20 - Cristianismo seletivo não é religião, é só uma forma de ser babaca mesmo.
21 - Se você, depois de ler isso tudo, ainda sente vontade de reproduzir todos esses preconceitos, seu lugar não é em uma democracia. Volte no tempo e tente uma vaguinha na Itália de Mussolini.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Caiu na #rede é o que mesmo?

Nos últimos dias vimos que foi criada uma tal de Rede Sustentabilidade, ou #rede, cuja liderança é da historiadora acreana Marina Silva, ex PT e PV, por onde concorreu às eleições presidenciais de 2010, terminando o pleito em terceiro lugar, atrás da presidente Dilma e do jurássico neoliberal José Serra.

Marina, liderança "natural" do novo partido, afirmou que a nova sigla não é de direita, nem de esquerda, mas que está a frente de outros partidos. O que concluir de uma afirmação como esta? Ao meu ver, assim como nas eleições de 2010, ela (que encontra ecos de sua voz em outros partidos políticos) pretende se mostrar acima de quaisquer conflitos, sejam eles ideológicos, programáticos e de atuação política. Tal estratégia é típica de partidos e outras organizações da classe dominante (meios de comunicação, principalmente) que se fingem neutros, numa tentativa (na maioria das vezes, bem sucedida) de criar um consenso sobre suas visões de mundo, projetos de sociedade, etc. 

Sempre que alguém afirma não pertencer à direita, ou à esquerda, pode ter certeza que este alguém é de direita, ainda que no caso do novo partido, haja possibilidade de um diálogo com alguns setores da esquerda. Vale lembrar, que a maioria das organizações políticas de direita no país tem uma enorme dificuldade (na verdade, trata-se de falta de interesse político mesmo) de afirmarem publicamente suas posições reais. E é exatamente o que vai se desenhando nesta nova #rede, que se afirma superior à outras agremiações políticas, diz que vai fazer uma política diferente, mas que já agrega membros que praticam e praticaram a velha política, como políticos de PT e PSDB, partidos supostamente "rivais", além da contraditória PSOLista Heloísa Helena.

Outro ponto importante, é que tal #rede se diz defensora da sustentabilidade e da ecologia. Ao menos nas reportagens que li acerca da formação deste novo grupo, a Rede Sustentabilidade, não se pronunciou sobre a política agrária que defendem para o país, nem sequer direcionou uma crítica ao latifúndio. No entanto, conforme afirma a Folha de São Paulo:  "O estatuto do novo partido proíbe o recebimento de doações de fabricantes de bebidas alcóolicas, cigarros, armas e agrotóxicos e estabelece que a legenda imporá um teto às contribuições que seus candidatos poderão receber." 

Então, será que para estas pessoas, somente uma série específica de capitalistas destrói o meio ambiente? Ou será que eles só estão dispostos a mostrar para o público que estão em defesa do meio ambiente, sem realmente praticarem uma política condizente com tal bandeira? Afinal, as ideias em defesa da ecologia, do fim dos desmatamentos, diminuição da poluição, etc são uma espécie de senso comum na sociedade, na qual um político que por ventura se disser contrário a tais políticas dificilmente terá algum destaque, enquanto outros que levantarem tais causas com mais frequência, terão mais chance de conseguir destaque. Me parece que esta é a estratégia da #rede, que apesar de ver nos agrotóxicos um mal para a sociedade brasileira, dificilmente conseguirá, caso chegue ao poder, efetivar uma política contra o uso destes insumos, devido principalmente à suas próprias contradições internas, e não propor um enfrentamento a interesses capitalistas.

O estatuto do partido também prevê um teto para os gastes com campanhas nas eleições. Interessante, mas ainda assim, o capital privado provavelmente terá um espaço grande na #rede e irá  fazer o mesmo jogo de interesses que faz com outros partidos. Por que não defender o financiamento público?

Diante de tantas confusões, eu me pergunto: Se essa galera é tão em cima do muro, por que não foram pro PSD?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Prevendo a Metereologia

Primeiramente, meus queridos, feliz 2013 e feliz natal de 2012 (super hiper mega atrasado, eu sei). O Quer Ficar Com a Perna Grossa corporation está de volta. Estive muito ocupado nos últimos meses e não tive muito tempo para escrever aqui. Mentira, na verdade eu não tinha o que escrever aqui.

Mããããããs, como estamos no mês de janeiro, eis que me apareceu uma luz. Ou uma água. Ou muitas águas. E não foi só comigo. Praticamente com a população inteira de meu querido e caótico estado do Rio de Janeiro.

Como muitos de vocês puderam acompanhar pela televisão, diferentes lugares foram afetados por conta de fortes chuvas nesse início de ano. Há umas semanas atrás, muitas pessoas na baixada fluminense, principalmente em Xerém (Duque de Caxias) ficaram numa pindaíba legal.

Esta imagem é apenas uma leve ilustração de como ficaram as coisas por lá.

Semana passada, foi a vez da charmosa (só que não) Praça da Bandeira ficar alagada. Mais uma vez. Eu já acho, inclusive que poderiam mudar o nome daquele lugar para praça da inundação, porque toda vez que cai uma chuva intensa naquela área, nego tem que passar por ali com água no joelho.
Nessa imagem acima, podemos ver um jovem, provavelmente estudante, se preparando pra tirar uma onda no piscinão recém instalado pela prefeitura, que por sinal se elegeu com uma chapa denominada "Somos um Rio". No mínimo sugestivo.

Mas, infelizmente, notícias como essa não são mais novidade para ninguém. Acontece que, sempre que tragédias como estas mencionadas ocorrem, ouve-se dizer nos jornais que especialistas em metereologia afirmavam que no dia do acontecimento da catástrofe, choveu a quantidade esperada para o mês inteiro.

Ok, choveu pra caralho mesmo. Mas po, eu to ouvindo esse papo de que o esperado pro mês era X, e que em um só dia choveu X ou 2X e etc. Ano passado foi a mesma coisa, e o retrasado também. Poxa, acho que já dá pra afirmar que em algum dia de verão no ano que vem vai chover o esperado (ou mais) para o mês inteiro. Ou não?

Enfim, na verdade eu não entendo porra nenhuma de metereologia, mas sempre escuto esse papo de que essas chuvas fortes não eram esperadas. Aí vem o prefeito todo engomadinho e diz que o que aconteceu foi um acidente, uma tragédia inesperada, uma fatalidade. Como assim, se todo ano acontece? Ok falar que foi fatalidade, porque a quantidade de pobre morto todo início de ano é alarmante. Mas de resto...

Será que é tão difícil evitar que coisas como essas aconteçam? Ou melhor, será que é tão difícil ter o mínimo de decência e vergonha na cara para afirmar que o que tem acontecido não é um desastre natural, mas sim consequência de um descaso histórico por parte do Estado brasileiro em relação a moradia?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Quando a vida te der limões...

Há cerca de um mês atrás eu entrei em um ônibus (mais precisamente o 335, Cordovil - Tiradentes via Brás de Pina) em minha volta do trabalho. O ônibus estava bastante cheio, como de costume naquele horário, por  volta de 9:15 da noite.

Após entrar, passei a roleta e fiquei em pé próximo a ela. Poucos minutos depois, um homem entrou no ônibus e foi passar a roleta. Para não atrapalhá-lo, me movimentei em direção ao centro do busão. Neste longo e árduo caminho, um homem sentado que aparentava ter entre 55 e 65 anos puxou a minha perna. Na hora eu não entendi nada. Mas como sou um desastrado de carteirinha, pensei na possibilidade de ter pisado no cara, ou algo do tipo. Parei perto do homem e perguntei:
- Com licença, eu pisei no senhor?
O homem gentilmente me respondeu:
- Você está maluco!
Tomei um susto com a resposta, e apenas disse:
- Ok, desculpa.

Alguns segundos depois, o cara continuou falando em tom irônico:
- Você não fez nada, não fez nada você!
Fiquei confuso.

Após esse breve e amistoso diálogo, a mulher que estava sentada do lado dele olhou pra mim como se quisesse dizer que o cidadão estava bêbado ou fosse maluco. Na hora eu liguei o foda-se.

O cara, no entanto, continuou falando. Não dei muita atenção e nem lembro direito o que ele dizia. Mas se não me engano, na maior parte do tempo, era algo do tipo "Eu vou querer brigar com você? Eu tenho sei lá quantos anos!". Pra não deixar o cara no vácuo, eu só balançava a cabeça e dizia "Jamais, jamais..."

Até que chegou o momento em que o homem resolveu falar da mulher que estava sentada no banco de trás. Também não dei muita bola, mas ele parecia estar falando da aparência física da cidadã.
E aí é que estava o problema. Por um momento eu esqueci que há no mundo pessoas sem a mesma capacidade de abstração que eu tenho. A mulher começou a ficar bolada. Perguntou pra mim o que o cara estava falando. Como eu nem sabia direito, tentei fazer o mesmo sinal que a mulher ao lado dele me fizera minutos antes. Mas minha tentativa foi inútil.

Eis que a mulher de trás se levanta. E foi tirar satisfação com o homem. Falou para o mesmo "calar a porra da boca", caso contrário ela meteria a porrada no cidadão. Após um breve momento de inquietação, ambos se sentaram. E aí o homem talvez tenha cometido o maior erro da vida dele: continuou a falar. Eu por um instante achei que as coisas se acalmariam até eu chegar em casa. Só que não contente em apenas continuar falando, o homem aumentou o tom de voz. Começou a chamar a mulher de "grossa", "vadia", "gorda", ainda soltou frases do tipo: "Algum homem vai querer isso ai? Toda grossa, toda ruim". Enquanto isso a mulher não parava de xingar o cara de "velho babão" ou coisas do tipo. Eles se levantaram novamente e tornaram a discussão mais ríspida. Como não sou uma pessoa que gosta de agressões, tentei acalmar os ânimos, afinal, não custava tentar, estava perto e talz, sem contar que se saísse porrada ali seria por um baita motivo banal. Mas eu subestimei o poder da violência.

A mulher disse que se o cara encostasse ao menos um dedo nela, a porrada comeria. Pra mim era blefe. Pro cara também. Ele só de sacanagem encostou. E a mulher fez seu braço voar pra cima do cara, que por sua vez revidou. Pois é, você já deve ter entendido que isso era tragédia anunciada. O problema é que eu não tinha entendido. Neste momento, eu ainda estava no meu processo de tentativa de apaziguamento, que fora solenemente ignorado por ambos. Ou seja, conforme a porrada começou a comer, eu fui delicadamente jogado em direção a roleta e não pude fazer nada a não ser assistir de um ponto de vista privilegiado dois seres humanos caindo no tapa sabe-se lá por qual causa, motivo, razão ou circunstância. Saldo da porradaria: os dois bateram, os dois apanharam.

A confusão gerou um furor geral no ônibus. O pessoal ficou revoltado com o cara, afinal, ele estava batendo em uma mulher. Deram uns pescotapas no maluco, mas nada que o machucasse. Depois de uma rápida confusão geral, tentaram fazer com que o cidadão descesse do ônibus. Ele se recusou, pois afirmou que  não tinha feito nada (pois é). O ônibus ficou parado por um tempo, até que a mulher falou para os mediadores da confusão (a essa altura do campeonato eu já nem tentava mais acalmar nada): 
- Deixa ele quieto ai, se fudeu, apanhou de mulher. Vou ligar pro meu marido dar uma coça nesse filho da puta.

Mais uma vez eu achei que era blefe. Mas não era. Após andar mais um pouco, o ônibus parou em um ponto onde muitos passageiros descem, mais precisamente na esquina da Rua Ourique com a Taborari, pra quem conhece esse feudo. Após a descida de passageiros, um homem de cerca de 35 anos entra no ônibus e pergunta:  
- O que está acontecendo?
A mulher envolvida na confusão diz:
-Foi ele, amor!
Em seguida aponta para o homem envolvido na briga.

Depois de proferir meia dúzia de palavras intimidadoras para o homem que deveria ser uns 20 ou 30 anos mais velho que ele, o rapaz enfiou-lhe a porrada. Teve de tudo: mão aberta, mão fechada, pontapé, inclusive uma bela técnica de se pendurar no balaústre e dar pontapés voadores. Quando eu achava que aquilo já tinha ido longe demais, entra um rapaz mais novo e mais magro do que o marido da mulher envolvida, e começa a bater com um pedaço de pau na cabeça do homem.

Neste momento eu não aguentei mais. Como já estava perto de casa, desci do ônibus ali mesmo e fui andando. A mulher ao lado do homem violentado fez o mesmo que eu.

Como se já não bastasse ter que viver com o caos diário do transporte, ainda tive que ver de perto cenas de violência gratuita.

Não consegui achar nada de bom nesta história, mas se a vida te der limões, faça ao menos uma postagem em um blog.

Ps: Galera, por favorzinho, vamos evitar comentários que contenham criminalização da pobreza. Obrigado.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Maior Brasileiro de Todos os Tempos

A finalíssima acontecerá no dia 3 de outubro. Ainda estão no páreo Chico Xavier, a princesa Isabel e Santos Dumont.
Por essa lista passaram alguns nomes de extrema importância para a história de nosso país, seja na política, nas artes, esportes, etc: Getúlio Vargas, Pelé, Irmã Dulce, Renato Russo e Machado de Assis foram alguns deles.

A lista também contabilizou uma série de nomes bizarros, como: Dedé do Vasco, Luciano Huck, Rodrigo Faro, Xuxa, Luan Santana, Michel Teló, Gugu Liberato, Hebe Camargo, Reinaldo Gianecchini, Datena, Ronaldinho Gaúcho, Cláudia Milk, Silas Malafaia, Eike Batista, Neymar, Edir Macedo, Roberto Justus, Ronald Golias, Anderson Silva, Fernando Henrique Cardoso e vamos parar por aqui pra não ficar mais feio.

Me entristece mais, na verdade, a forma como essas personalidades são apresentadas ao público. Um misto de heroísmo com ufanismo, como se nosso país não fizesse sentido sem a bondade e/ou genialidade das pessoas em questão. Uma princesa Isabel boazinha, que por pena dos negrinhos escravizados, fez a bondade de conceder-lhes a liberdade. Um FHC que deveria ganhar uma estátua dourada por ter controlado a inflação. Um JK que só pensava na integração entre as regiões do Brasil, um visionário, pessoa a frente do seu tempo.

Não quero questionar a importância de alguns desses nomes, mas colocá-los como salvadores da pátria é no mínimo exagero. Se existe um maior brasileiro de todos os tempos, ele certamente não foi capa da Veja ou da Caras, não foi manchete de jornal, não foi matéria do Fantástico, nem foi entrevistado pela Hebe. Provavelmente foi um cara que acordou bem cedo mais da metade dos dias de sua vida, comeu o pão que o diabo amassou no trabalho, fez o que pode pra se sustentar (e sustentar sua família) e ainda assim teve que lidar com a humilhação diária imposta por uma sociedade desigual. Sem nenhum reconhecimento.

Me irrita a forma como são colocadas tais figuras por parte de nossos meios de comunicação de massa. Sobra sensacionalismo e falta um pouco (pra pegar leve) de senso crítico. Lamentável.

Pra piorar, tudo isso apresentado por um cara que disse que eu já fui mais inteligente só porque falei que a Luiza tava no Canadá.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Cotas nas universidades

Vi que muitas pessoas andaram se posicionando em relação ao assunto recentemente, devido a aprovação simbólica no Senado de reserva de 50% das vagas nas universidades para estudantes de colégios públicos. Talvez o que tenha tornado essa medida um pouco mais polêmica é que tal reserva de vagas possui aspectos ligadas ao vago, confuso e já superado conceito de raça. Dessa forma, quem se declarasse negro, pardo ou índio teria direito a cotas.

Minha análise não busca de forma alguma responder a todas as questões que envolvem esse amplo debate. Porém acredito que a forma como ele tem sido feito, principalmente pelas pessoas que se sentiram prejudicadas com tal projeto, carece de um pouco de sensibilidade em relação a realidade politico-econômica do país e possui em demasia pensamentos relativamente individualistas. Um debate que envolve tantos temas complexos não pode, a meu ver, ser vítima de tantos reducionismos ou casos específicos a serem abordados para uma política de amplitude nacional.

Bem, antes de qualquer coisa, eu acredito que qualquer política inclusiva precisa parar de ser vista como privilégio. Se chegamos ao ponto de tomarmos uma medida como essa, é porque: 1- O nosso sistema educacional desvaloriza completamente o ensino publico, em favor de instituições privadas que se beneficiam através das condições precárias das escolas públicas. 2 - O ingresso às universidades e outras instituições federais é altamente excludente.

As razões para tais fatos (grosso modo) se dá pela histórica elitização da educação no Brasil e ao descaso de nossos recentes governantes (recentes aqui me refiro desde a abertura política, levando em consideração que não dava pra esperar muita coisa dos milicos). No entanto, seriam perfeitamente passíveis de melhora em médio e longo prazo caso Dilma e Mercadante se colocassem disponíveis ao diálogo com professores e servidores, e/ou caso 10% do PIB brasileiro fosse destinado à educação pública.

Pode ser que esse sistema de cotas seja uma forma de "mascarar" a péssima qualidade do ensino público brasileiro. Tenho certeza de que elas não seriam necessárias se nosso país fosse menos desigual. Mas fico pensando em como estaria a situação desses jovens cotistas hoje, caso não conseguissem o acesso à universidade. Provavelmente jamais teriam oportunidade semelhante. Vale lembrar também que, por condições econômicas, muitos estudantes de classe média baixa e pobres não conseguem concluir seus estudos no ensino superior.

Podemos achar falhas nesse sistema? Com certeza, e acho que é interessante que ele receba críticas. Mas não consigo acreditar que o meu país seria menos injusto se ele não existisse.

O acesso a universidade está longe de ser dado por mérito. E antes as incertezas de uma política de inclusão estranha, do que a completa ausência dela. Mas não me restam dúvidas de que há muita coisa pra ser acertada caso algum dia quisermos ter uma educação decente.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A meus amigos de Brás de Pina e redondezas

      Há mais ou menos um mês e meio (talvez mais), recebi na caixa de correio da minha casa um papel. Tratava-se de uma cópia de um e-mail do senhor Ulisses Marins cujo destinatário não me lembro o nome. Tratava-se provavelmente de algum órgão da prefeitura. Não tenho acesso ao documento agora, uma vez que minha mãe o jogou fora. Mas se isso chegou à minha casa, vocês talvez saibam do que estou falando. Neste e-mail, grosso modo, pedia-se algumas pequenas melhorias na pavimentação de ruas e/ou iluminação, se não me falha a memória. 
        Bem, mesmo não conseguindo lembrar do e-mail na íntegra, achei no mínimo curiosa esta forma de se fazer propaganda eleitoral antecipada. Muito legal cobrar das autoridades o que é, na verdade, obrigação delas. Mas por que será que é preciso mostrar isso aos seus vizinhos quando se está prestes a iniciar sua campanha para vereador da cidade? Pelo visto pagar de bom samaritano nos arredores da sua casa é uma boa forma de se legislar.
        Se vocês não forem cegos, acredito que já devem ter visto há um tempo atrás um ou dois cartazes no valão da Itapemirim pedindo aos moradores daquela área para não jogarem lixo no rio (ou seja lá o que aquilo seja hoje em dia). Poxa, realmente não é legal jogar lixo no rio, mas por que um cartaz com esses dizeres PRECISA ter o nome desse homem? 
        E quanto às mensagens de final de ano que pudemos ouvir (aliás, tivemos nossos tímpanos quase estuprados) através do DIOGO - CARRO DE SOM? Será mesmo que esse cara tá realmente se importando se a gente vai ter um feliz natal e um próspero ano novo, ou essa merda é só pra gente não esquecer o nome dele e a chatice que foi a eleição de 2008, na qual de 5 em 5 minutos a gente ouvia a música: "Ulissses, Ulisses, 1461seeeeeeeeeeeeeeeeeiiss, vote melhor, vote melhoooooooooooooooooooooorrr, Ulisses pra vereadooooooooooooooooor"?
         Por falar em musica chata, vocês já devem ter notado que houve uma pequena mudança no número do candidato. O que era 14, passou a ser 15, o que significa dizer que ao invés de concorrer à câmara municipal pelo PTB, Ulisses agora tenta a sorte pelo PMDB, do prefeito da cidade Eduardo Paes e do governador do estado Sérgio Cabral. E do senador da república José Sarney também. Mas vou parar por aqui porque se for listar cada nome "suspeito" que há nesse partido, a postagem acaba só na próxima eleição. O que me leva a seguinte pergunta: Será que esta foi uma mudança ocasionado por motivos de visão de política e democracia, ou por meros interesses imediatistas (mais chances de ser eleito)? Se a primeira resposta for verdade, esta me leva a outro questionamento: Qual é a visão do PMDB sobre Estado, política e democracia? Se esta pergunta for ampla demais, qual é a visão do candidato sobre essas questões? Porque pelo que podemos ver, é só um jinglezinho pobre, umas plaquinhas aqui e ali e ele se colocando com "o defensor da leopoldina".  Se a segunda resposta for verdade, creio que minha intuição está correta.
       Meus amigos, por mais que um vereador tenha como UMA de suas funções promover a ligação entre os eleitores de sua região e o governo, é um tremendo engano (pra não dizer outra coisa) votar em um candidato, qualquer que seja, só porque ele mora perto da sua casa, da sua rua ou do seu bairro. Há outras coisas que devem ser analisadas além disso, porque um vereador legisla, dialoga com o governo e propõe planos para a cidade. Neste caso, por ser do PMDB, a legislação deste seria (querendo ou não) particamente um "sim, senhor" para a base do governo. Deixar de ver estes pontos e fazer um voto pura e simplesmente bairral é tolice. Por isso, meus amigos, queria fazer esse apelo. Não é porque ele mora aqui pertinho que ele vai nos representar. Vamos lembrar que os nossos "representantes" locais mais famosos, como a família Fernandes (da Rosa e dos Pedros) só vem pra cá pra pseudo-reformar praças e podar árvores e colocar cartazes dizendo que nós estamos agradecendo. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Guia para ser um babaca de qualidade em tempos de greve nas universidades


Lição n° 1 - Foque exclusivamente sua análise nos "prejudicados". Enfatize como será ruim atrasar as aulas e, se puder, aumente dizendo que não poderá viajar no final do ano por causa da greve.

Lição n° 2 - Ignore as condições de trabalho e estudo existentes nas IFES. Se você é aluno de uma delas e estuda num campus com boa infraestrutura, finja que todos os seus colegas de universidade compartilham do mesmo espaço de estudo que você. Se estuda num campus ou instituto onde as coisas não são tão boas assim, diga que seus colegas e professores estão reclamando de boca cheia. Mas sempre forje um escândalo quando for ao banheiro e não tiver sabão para lavar as mãos, ou papel pra limpar o cu.

Lição n° 3 - Lembre que todo professor universitário "ganha bem". No entanto, não leve em consideração o grau de instrução da categoria. Nem sequer ouse lembrar que há outras profissões cujos profissionais não necessitaram de tanto estudo quanto os professores das universidades federais e que recebem salários bem maiores que o da categoria.

Lição n° 4 - Se você é um aluno de uma IFES e reclama de alguns professores "falcatruas", fale deles como se estes representassem todo o grupo de trabalhadores. Ignore o fato de que há pessoas extremamente comprometidas com seus trabalhos e que reclamam mais reconhecimento por parte do governo federal.

Lição n° 5 - Se você não é aluno de uma IFES e não está muito interessado em saber sobre a situação das universidades públicas, mas no entanto, não quer soar desatualizado, diga que a causa é em vão e que só fazem isso pra ferrar os alunos.

Lição n° 6 - Se for um aluno babaca de uma faculdade particular, diga que foi por causa de possíveis greves que não foi estudar em uma universidade pública. Jamais mencione que não passou no vestibular, e tente se gabar, porque afinal, sua universidade não tem esse tipo de problema.

Lição n° 7 - Se é aluno de uma universidade em greve, mas não concorda com ela, não perca seu tempo discutindo suas opiniões com alguns estudantes. Afinal, esses pseudo-revolucionários não merecem a sua atenção.

Lição n° 8 - Se não fizer parte de uma IFES ou outra universidade pública em greve, mas tiver o mesmo preconceito explicitado no item acima, ignore o fato de que esses estudantes muitas vezes precisam trabalhar para sustentar seus estudos. Lembre sempre dos filhinhos de papais que lá estão. Sempre esqueça do fato de que lá estão grandes seres pensantes, futuros profissionais de extrema capacidade intelectual (apesar das dificuldades nas condições de ensino de muitos deles).

Lição n° 9 - Se por acaso tomar conhecimento de algo errado feito por algum(ns) membro(s) do movimento em favor da greve, faça questão de mostrar que todo o movimento é assim.

Lição n° 10 - Esqueça que greve é direito do trabalhador. Mostre que estes só estão preocupados com seus próprios umbigos, e que se estivessem realmente preocupados com o futuro do país estariam TRABALHANDO, pois é assim que um país cresce.

Lição n° 11 - Esqueça que, antes de qualquer greve, há uma tentativa de diálogo e negociação. Mostre sempre o quão inconsequente é esse tipo de mobilização, ainda que você não tenha conhecimento de nenhum outro que tenha dado resultados.

Lição n° 12 - Não fale absolutamente nada sobre plano de carreira, ou condições para aposentadoria. Afinal, é bom salientar que o professor só tá ali por causa de dinheiro e ele já "ganha bem pra caralho".
Lição n° 13 - Se por algum acidente se meter em um debate sobre a greve e tiver que propor alguma ideia para a melhoria da educação, grite logo: "PRIVATIZAÇÃO", é a saída mais rápida e eficaz. Afinal, privatizar faz tudo dar certo.

Lição n° 14 - Desqualifique qualquer ação como meramente ideológica, como se a sua desqualificação não fosse.

Lição n° 15 - Se for professor, estiver no topo da carreira e além disso ganhar dinheiro com outras atividades (algumas privadas utilizando inclusive o nome da instituição de ensino publica em que trabalha), use dos argumentos mais hipócritas para justificar a não entrada na greve.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Síndrome do Underground

Já há um bom tempo que eu ouço falar em uma tal de "orkutização".

Tom pejorativo, ar de elite, distanciamento de uma realidade da qual alguns negam tanto que parecem até que nunca tivessem se "orkutizado" na vida.

Posam com um ar de "too cool for the crowd", mas repetem as mesmíssimas coisas que o povão faz, mas com uma pitada de erudição que é mais maquiagem do que qualquer outra coisa (assim como estou tentando fazer agora).

Refletem todos os preconceitos de uma sociedade excludente, só esquecem de lembrar que muitas das vezes eles são os excluídos também.

Mas, por alguma diarreia mental, se colocam em algum lugar do qual não fazem parte e acham que o nível de "orkutismo" se baseia na capacidade de uma pessoa escrever e falar "corretamente", talvez com algumas tacadas de estrangeirismo pra mostrar que ser bilíngue é um "must".

Tem ciúmes de coisas que eles gostam. Só eles podem gostar daquilo, como se gosto fosse alguma espécie de regime de propriedade, onde só uma elite esclarecida pode ter acesso ao "bom gosto".

Choraram quando ouviram a Adele no rádio, pois ela havia "orkutizado".

Tudo que era até então "propriedade" deles, de repente os fez sentir como se tivessem se misturando com a gentalha, e essa estragaria tudo o que houvesse de melhor nessa vida (que obviamente, deve se restringir aos poucos e bons)

Em contrapartida, não esperam nem um segundo pra falar do "mal gosto da ralé", e como gostariam de um mundo onde apenas os cidadãos de "bom gosto" existissem.

Nessas horas eu é que não tenho vontade de me misturar com essa gentalha... vamos, tesouro!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sorria por quê?

E pra quem?

Outro dia estava numa loja qualquer olhando algumas coisas que eu já nem me lembro mais, e eis que de repente, bate em mim uma vontade corriqueira, porém levemente constrangedora a qualquer homem que esteja em um lugar público: aquela vontadezinha marota de coçar o saco. Discretamente, me virei para um canto onde não notariam o que eu estava fazendo e aí me deparei com aquela famosíssima placa que diz: "SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO".

Na hora me bateu um baita de um constrangimento. Pensei: "Não farei isso agora, vai que os caras que tomam conta das câmeras tão vendo e começam a rir da minha cara sem eu estar ciente...". Aguentei mais um pouco, e ao sair da loja pude finalmente me aliviar - obviamente de maneira discreta, não ia fazer tipo assim:


Depois de um tempo, comecei a refletir sobre isso: Pelo menos desde que o Rodriguinho e os Travessos começaram a fazer sucesso com "Sorria que eu estou te filmando, sorria o coração tá gravando o seu nome aqui dentro de mim ouw, ouw, ouw, ouwl, sorria que o prazer já vem vindo, sorria o nosso amor tá tão lindo, não quero ver você tão triste assiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim" eu não me sentia tão incomodado ao ver uma placa dessas. Lembrei também que praticamente qualquer estabelecimento com uma estrutura considerável possui as tais câmeras de segurança.


Mas que puxa, será que todas as vezes que entramos numa loja, num prédio comercial, recepção de hotel, ou até quando estamos na rua somos alvo de alguma espécie de big brother para apenas algumas pessoas? Será que o nosso jeito de ser, de agir, que algumas vezes é espalhafatoso, mas dentro da "normalidade" vira um motivo de chacota pra pessoas que nem vemos, nem conhecemos? A que ponto somos tão expostos assim? Será que daqui a algum tempo, todos os lugares que iremos terão câmeras de segurança? Será que isso poderá nos convencer tanto de que é um instrumento em função do "bem comum"? Até que ponto a tal da prevenção não vira um negócio chamado "constrangimento"? E mais, quem é que está nesses lugares para garantir que estamos realmente seguros simplesmente por estarmos sendo filmados? E mais, por que deveriamos ficar felizes, se precisamos ser filmados em nome de uma (talvez) falsa segurança?

Na melhor das hipóteses, se isso tudo for realmente necessário, a presença das câmeras não me faz sorrir.
Me faz lembrar que todos nós temos que nos submeter a coisas desagradáveis porque nossa civilidade
parece ter morrido. Pior do que isso, nem pra coçar o saco eu fico mais a vontade.